segunda-feira, 16 de julho de 2012

Onze de Junho



11 de Junho de um ano qualquer.


Eles caminhavam pela Avenida Paulista em uma noite fria, véspera de dia dos namorados.
O caso deles era antigo, porém, nunca houve relacionamento assumido... Sentimentos estampados certamente e isso sempre foi o bastante.


Ter ele ao seu lado, naquela noite em especial se tornaria um momento único nessa história atemporal. Uma fotografia com gosto de Fran's Café e ao som de saxofone.


Os olhos dele brilhavam aos pés da torre da TV Globo, o que a fez lembrar-se daquele conto do Caio Fernando:


"Na noite de sábado, caminhando sozinho pela avenida Paulista, o quarto-crescente brilhando sobre a torre da TV Globo, uma vontade desesperada de ter alguém – as únicas canções que me vieram à mente para cantar baixinho foram canções de Bethânia."  

Estar com ele, é sempre uma emoção Bethânia.

E de volta ao metrô, mesmo cenário de conversas ao telefone em que ela o levava consigo durante o trajeto e suas baldeações. Ele em outro estado, atrasado para aula de ciências políticas.

Agora lá estavam, os dois no mesmo vagão, compartilhando o mesmo assento. Abraçados, de mãos entrelaçadas, conversando sobre coisas comuns.

Em poucas horas, ela mostrou a ele duas São Paulos distintas... Da Avenida Paulista (linda que só ela) à Zona Leste.

Ele não notou a diferença durante o percurso entre esses dois polos da mesma cidade, foi como se estivessem no ônibus A-123, saindo do terminal central indo para a antiga rua 43, no bairro Santa Mônica. Indo para casa dela, onde sua avó estaria os esperando com uma bandeja de quibes fritos.

Chegaram mais de 23:00 e lá estava a avó dela com os quibes e café quente, recém passado esperando-os. 

Sentados os três a mesa, como em outra tarde meio nublada ... lembranças de uma outra vida. 

É engraçado como ele se encaixa harmoniosamente naquele ambiente. 
Come os quibes, toma café, conversa com aquele sotaque amineirado e maroto...

A avó dela diz boa noite, mostra a cama de solteiro com lenções limpos que arrumou para ele e delicadamente diz boa noite e se dirige para seu quarto.

O coração dela dá um salto... mostra a ele o quarto dela e sorrateiramente fecha a porta do quarto destinado a ele. 

Ela se recorda vividamente da última vez em que o teve em sua cama. Um momento em que estava tão cansada de procurar outros corpos, que foi trombar com ele uma única vez para querê-lo de volta a sua vida, seus pensamentos, sua cama... Bastou um telefonema, scrap, ou coisa do tipo para tê-lo ali, naquela mesma cama.

As amigas dela dizem que essa história entre eles é a "História Sem Fim", quando tudo indica que cada um seguirá um caminho e ficarão apenas lembranças de dias que se foram, lá estão eles... em uma rodoviária ou estação de metrô, trocando beijos e falando de filosofia.

Ela entra no quarto, ele está deitado em sua cama, cheio de malcaratismo no olhar e sorriso escancarado. É inevitável o riso, a ironia do momento... assim como é inevitável não lembrar dos tempos da cama de armar e um mês inteiro de Bob Marley.


I wanna love you and treat you right

I wanna love you every day and every night

We'll be together with a roof right over our heads


Foi uma madrugada digna de um 12 de Junho, em que os beijos dele junto aos dela aqueceram não apenas seus corpos... trouxe calor ao seu coração desnorteado na cidade grande. Por menos de 24 horas, um teve ao outro por inteiro, compartilharam uma intimidade construída e regada a sei lá quantos anos. 

Fizeram amor (diferente de fazer sexo), riram de coisas bobas entre beijos e gemidos.
Tiraram fotos, registros de uma noite malcarater transbordando carinhos.

Olhos no teto, corpos entrelaçados, pensamentos dispersos e uma conexão atípica... antes ela apenas o olhava nesse vagar de pensamentos, agora compartilhavam aquele fragmento de tempo silencioso.

Dormiram as horas restantes da madrugada fria, juntos, corpos colados, sono sem sonhos.

O celular desperta ... o ignora.

Ela olha a hora... estão atrasados.

Um segundo se passa, mesmo tentada a mantê-lo ali, perto de si a aquecê-la e só para ela... o acorda e saem em disparada.

Feito cena de filme, com passos largos e longos goles de café comprados no meio do caminho ele se deixa guiar de volta a catraca de metrô do encontro.

Subindo a rua de sua casa, antes de chegar ao ponto de ônibus ela da pra ele um pequeno objeto para que se lembre dela... daquela noite... de seus beijos.

Dorme em seus braços quando entram no vagão de metrô, como se não fosse voltar sem ele. Sente teu cheiro, e lembra-se da primeira vez que o deixou... férias de Agosto, e da camiseta azul que queria para si. Não era mais necessário objetos para reter o cheiro dele, pois o cheiro dele estava impregnado nela. Em cada poro... e mesmo depois de banhos matinais e o escorrer da água, ele permaneceria nela, estava retido em sua memória olfativa.

Ele brincava com seus cachos e disse sem medo o quanto a achava linda e da beleza daquela noite e do tempo que estiveram juntos.

Deixa-lo passar por aquela catraca foi mais difícil que suspeitara. Mas ela precisava deixa-lo ir, mesmo sabendo que mudanças estariam por vir... Aquele ainda não era o momento em que o teria perto o suficiente para não precisar das fotos. 

A foto da despedida não ficou tão boa, mas foi com ela que teve de se contentar. 

Um último abraço apertado... um último beijo... 


See I wanna love ya, I wanna love and treat ya, love and treat ya rightI wanna love you every day and every nightWe'll be together with a roof right over our headsWe'll share the shelter of my single bedWe'll share the same room yeah, but jah provide the breadWe'll share the shelter of my single bed


"Doía fundo estar perdido na grande cidade, era completamente sem remédio ser só uma pessoazinha machucada. Mas brotou então um orgulho tão grande de ser ainda capaz de sentir o coração cheio de emoções-Bethânia que era quase como uma felicidade. Sangrada, do avesso – que importa? Era real, era vivo. Isso é muito, e Bethânia canta."




Entre rodoviárias, catracas e estradas essa é uma história que sempre pede uma nova página em branco...



O que seria o "início" do conto foi escrito e postado por um amigo (Cristian Dorvas)  e m seu blog: http://cristiandrovas.wordpress.com/2012/07/10/onze-de-junho/

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