quinta-feira, 26 de julho de 2012

Tempo Nublado, Pizza e um Tango

                                                              
                                                                            Para ler ao som de Cérebro Eletrônico

Dê amor/ Dê paixão / Dê espera / Dê esperma / Dê prazer / Dê fogo
Dê uma nela / De carinho / De sacanagem / De sarro / De fato
Dê amor / Dê segurança
 De anca na anca dela / E amanheça de cabeça dentro dela 



Cristina, mulher madura (porém jovem). Do tipo independente, que sempre gostou de pagar as próprias contas e não ter de dar satisfação de seus atos. Nunca teve sorte com os homens.


 Bernardo, menino em corpo de homem. Simpático, galante e do tipo que não se apega.

Amigos a cerca de um ano. Saíram uma noite para jantar, transaram e o tempo ficou nublado.


...

Cristina recebe um telefonema de uma amiga no meio da tarde, Paty tem ingressos para um espetáculo no Municipal e deseja sua companhia.

Sexta - feira combina com um bom musical, comida leve e a companhia da amiga.

As 19:00hrs em ponto Paty pega Cristina em casa e seguem de carro rumo ao centro da cidade. No meio do caminho Cris percebe que o percurso está diferente e que o destino não é o Teatro Municipal.

Estão no bairro do Bexiga, em frente a uma cantina Italiana.


- Paty, o que estamos fazendo aqui? Não íamos ao teatro?

- Calma Cris, só vim cumprimentar um amigo... Coisa rápida!

 Mesmo achando estranho, lhe acompanha e entram na cantina.


...       

Diogo era caso antigo de Patrícia, se viam de vez em quando... típico "sexo casual".

Diogo e Bernardo eram amigos de infância.

                            ... 

Cristina usava um vestido preto de cashmere (um palmo a cima dos joelhos), salto alto (também preto) e uma echarpe vermelha.

                                                                ... 

Antes de serem atendidas, foram recepcionadas por Diogo e Bernardo.

Com o canto dos olhos, olhou para Paty e percebeu outra troca de olhares entre sua amiga e Diogo, olhar de cumplicidade.  E na sua frente, um sorriso "amarelo" de Bernardo.

                                                                ...  

Cristina e Bernardo se conheceram em um sebo na Vila Mariana, olhavam CD's... Ele fez um comentário qualquer sobre música popular brasileira, o que terminou numa agradável conversa em um café de esquina.

Trocaram cartões de visita, redes sociais e descobriram que tinham amigos em comum... Patrícia Soares!!!






  
Foi em uma terça-feira em que o movimento na agência (Agência de design em que trabalha como consultora) estava fraco. Aproveitou para responder alguns e-mails e conversar com os amigos via "redes sociais".

Bernardo estava online e puxou assunto com ela. Já havia se passado algumas semanas desde que se conheceram no sebo e não tinham se falado desde então.

Falaram sobre o "básico" (onde mora, o que faz da vida, qual seu filme preferido, musica e afins). Sempre que possível conversavam pela internet.

Um dia almoçando com a Paty, encontraram na praça de alimentação do shopping ele e o Diogo. Em outro fim de semana, baladinha na casa de alguns amigos e lá estava ele também.

Gradativamente foram notando-se nos mesmos círculos sociais, conversando com frequência e marcando almoços esporádicos.

Tornaram-se amigos...

Já fazia quase um ano que se conheciam e que o estranho do sebo se tornou o cara divertido que chamava de amigo.

Numa sexta-feira Bernardo liga pra Cristina, conversam sobre a semana de trabalho e a programação do fim de semana. Paty e Diogo iriam viajar e ambos estavam sem os respectivos “amigo escudeiro”. Combinaram de sair para jantar e terminar o papo tomando uma taça de vinho.

Pizza, vinho... ele extremamente cheiroso e ela meio carente.

Amanheceram em um quarto de motel. Roupas, lenções e cheiro agridoce espalhados.

Bernardo a deixou na porta de sua casa se despediram com um selinho e certo constrangimento.

                                                            ... 

Ficaram dias sem se falar. Depois de algumas semanas de “sumiço” Cristina mandou um sms, perguntando se estava tudo bem com ele e perguntando o porquê do silencio. Recebeu um “Está tudo bem, desculpa é que os dias têm sido corridos.”

Ela fingiu que acreditou com a mesmo ênfase que ele fingiu que suas palavras eram a verdade.

Claro que ele não ligou, não mandou e-mails e deixou de reconhecê-la nos eventos sociais.

Ela apenas confirmou a tese do “não tenho sorte com homens”.


                                                            ... 


O que aborrecia Cristina não era a falta do telefonema e dos chocolates no dia seguinte. Não precisava de promessas que não seriam cumpridas nem de falsos amores.

Ela sempre gostou de doses duplas de sinceridade e ao longo da vida aprendeu a lidar muito bem com elas.


Sempre assumiu posição de mulher, senhora do seu corpo e de suas ações e não admitia ser tratada como menina que não sabe quem é e para onde está indo (e muito menos como “uma qualquer”, fonte de sexo fácil e apagável).








Cantina Italiana, noite de sexta – feira.
 
Paty e Diogo em posição de defesa, Bernardo com um sorriso amarelo e Cristina mordendo o lábio inferior para controlar sua ira momentânea.

- Não sei o que está acontecendo aqui, mas eu vou embora!

Cristina odiava escândalos, Patrícia sabia como se sentia a respeito de Bernardo e junto com Diogo “forçaram” uma situação (provavelmente a pedido do próprio Bernardo).


Patrícia conhecia muito bem a amiga, e sabia que ter perdido o “amigo Bernardo” por uma noite de sexo era o que a deixava inconformada. Que se fosse outro cara, outra relação, não teria lhe abalado. Mas amizade sempre foi coisa séria para Cristina.

Bernardo queria se revolver com Cristina, pedir desculpas pela atitude infantil dos últimos meses e voltar a ter paz. Ele via o olhar recriminador de Diogo e Patrícia quando falavam sobre Cris.

Diogo gostava de Paty e do relacionamento que tinham. Ele e Bernardo eram muito parecidos, o suficiente para saber que o amigo não era do tipo “cafajeste”.

- Cris, fica... Não é pra tanto, o Bernardo quer conversar com você.

Cristina engoliu seco.

- E ele precisa de vocês DOIS para conversar comigo?

Patrícia:
- Ele vai pagar o jantar, eu adoro comida Italiana...
- Não custa compartilhar uma noite agradável conosco e ouvir o que ele tem a dizer Cris.

Bernardo:
- Cris... eu pedi para eles virem.
- Não sabia se ia querer falar comigo depois de...  meses.

Cristina:
- Não acredito que me colocou em tal situação Patrícia. Por mim eu iria embora agora.

O maitre vai até eles e pergunta se é mesa para quatro.
Bernardo diz que sim, e sem muito que fazer os quatro são direcionados a mesa.


Durante o jantar, Paty e Diogo tentam aliviar a tensão do ambiente enquanto comem uma massa ao molho pesto (preferido de Cris).

Bernardo chama Cristina para dançar. Tango Argentino em passos simples e uma tentativa de se explicar enquanto dançam.

Tango é um estilo “ferro e fogo”, não tem como ser indiferente ao seu ritmo e seus passos. Não é uma dança em que a dama é apenas conduzida pelo cavalheiro. Tem que saber os passos e fazer caras e bocas, se não... não é Tango!

Cristina conhecia bem os passos e gostava do estilo ferro e fogo. Deixou que ele fala-se.

- Cris, sei que fui infantil...

Cristina:
- Sabe?

Bernardo:
- Sei. E não me orgulho disso.

Cristina:
- Sabe também que usar a Paty e o Diogo para me dizer isso não é a atitude mais madura, né?

Uma cruzada de pernas, os corpos se juntam... nariz com nariz, olho com olho. Próximo passo.

- Fiquei com medo de não querer conversar comigo, se te procurasse diretamente.

Outra cruzada de pernas.

- Não tenho motivos para deixar de falar contigo Bernardo, só não admito ser ignorada sem ter feito nada. Transamos, não selamos comprisso!


Último tilintar de castanholas, fim do Tango Argentino!

A massa estava divina. Uma risada escapa no último gole de vinho... 



Paty e Diogo seguem juntos para algum canto da cidade.

Cristina acena para um taxi, e finge não escutar Bernardo dizendo que a leva.

Bernardo fica parado na frente da cantina olhando o taxi se afastar.




...


Ao chegar em casa Cristina tira os saltos, guarda a echarpe e veste seu pijama.
Foi uma noite atípica, ela já havia pensando nesse "encontro" com Bernardo... Imaginou que teria pitadas de ironia, mas não um Tango Argentino.

Sempre defendeu a tese de que cada um tem uma forma de pedir desculpas e dizer eu te amo's. Foi obrigada a admitir que uma cantina Italiana e molho pesto é uma forma requintada de se desculpar... Ou de dizer que se importa.

Talvez tenha sido dura de mais, meio intransigente.

Foi até a cozinha, pegou um pote de sorvete no freezer... colocou "O Fabuloso Destino de Amelie Poulin" no dvd. Essa era sua zona de segurança.

O celular na mesa de cabeceira vibrou.

Sms da Paty: "Cris desculpa pela 'mentirinha' mas tenho os ingressos para o Municipal, é pra quinta... não aceito não como resposta. Beijos!"

Tinha mais uma mensagem na caixa de entrada, Bernardo:

"Você sabe como se dança um Tango... obrigada por ter ficado. Bernardo"

Desligou o celular, o filmes estava começando!

"Estranho o destino dessa jovem mulher, privada dela mesma, porém, tão sensível ao charme das coisas simples da vida..."






4 comentários:

Mauro Castro disse...

Meu avô tocava bandoneon...o instrumento está guardado, ninguém aprendeu a tocá-lo. Cresci ouvindo tangos.
Há braços!!

Lili Tormin disse...

Seja bem vindo ao Ócio Mauro, Tangos me emocionam... heranças musicais, são bens raros!

Bju bju

Adrielly Soares disse...

Mas que gostoso de ler.
A gente ficar entretido na história o tempo todo. Dá pra visualizar eles dançando. Você nos conduz como ninguém.
Adorei.

Lili Tormin disse...

Que delicia ver a senhorita por aqui... saudade dos teus textos.

*Obrigada ^^